4. ECONOMIA 7.11.12

O ENROSCO DO SUBSDIO
Dilma manda a Petrobras segurar o preo dos combustveis para conter a inflao, mas isso debilita a empresa e mata a autossuficincia.
HELENA BORGES

     Foi bom enquanto durou. No prximo ano, o Brasil voltar a ser dependente da importao de petrleo. Adeus, autossuficincia, celebrada com fervor nacionalista em 2006, quando o pas passou a produzir mais petrleo do que consumia. O ento presidente Lula deu contornos picos ao feito, que comparou  segunda independncia do Brasil. A propaganda escondia que a conquista da autossuficincia ainda deixava um dficit na conta externa de energia, pois o Brasil continuaria a vender petrleo cru e a importar gasolina e diesel. Porm, apesar do saldo externo negativo, produzir tanto petrleo internamente ajudou a diminuir a vulnerabilidade da economia a choques externos, como os catastrficos eventos das dcadas de 70 e 80, quando a produo brasileira de petrleo totalizava menos de um dcimo da atual. Voltar a ser dependente da importao , portanto, uma m notcia.
     Um estudo indito do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), obtido com exclusividade por VEJA, mostra que, j em 2013, o Brasil estar consumindo mais leo do que ser capaz de produzir. Se teve seus mritos na conquista da autossuficincia, o governo tambm  culpado pela perda desse privilgio. Por duas razes: a primeira foi forar a Petrobras a subsidiar o preo ao consumidor da gasolina e do diesel, mantendo-o estvel mesmo com o aumento do custo internacional do petrleo; a segunda foi incentivar a venda de carros novos com crdito farto e corte de impostos, o que aumentou a frota nacional e, claro, o consumo.
     Essas feitiarias heterodoxas tm efeitos imprevisveis. Ao proibir a Petrobras de repassar os aumentos ao preo do petrleo, o governo conseguiu impedir um acrscimo mdio de cerca de 0,4 ponto porcentual no ndice de inflao, que j est bem acima da meta de 4,5% estipulada para 2012. Mas, ao bancar o subsdio, que s neste ano j provocou um prejuzo de 12,8 bilhes de reais, a Petrobras perdeu sua capacidade de investimento, no modernizou os poos j produtivos, interrompeu a prospeco de novas jazidas e atrasou a extrao da riqueza do leo de grande profundidade, o pr-sal. Como despiu um santo para vestir outro, a presidente Dilma Rousseff se encontra agora em um dilema severo. Se desafogar o caixa da Petrobras autorizando o repasse dos preos externos, a inflao subir mais rapidamente. Se mantiver a poltica de subsdio pela companhia, vai se arriscar no apenas a perder a autossuficincia como a entrevar irreparavelmente a empresa que  orgulho nacional, o retrato a leo do Brasil emoldurado pelos sonhos de grandeza de tantas geraes. Esse dilema no tem soluo fcil nem indolor.  uma daquelas situaes em que as opes so perder ou perder.
     Se no tem soluo, ele oferece a chance de refletir sobre, afinal, por que razo chegamos a essa situao negativa. A verdade pura e cristalina vem do fato de a presidente Dilma ter se servido da Petrobras como um brao de sua poltica econmica  no caso, como arma para conter a inflao, uma vez que foi descartada a opo clssica de segurar o drago com o aumento dos juros bsicos da economia, a taxa Selic. Diz Adriano Pires, diretor do CBIE, que patrocinou o estudo que aponta a volta da dependncia brasileira do petrleo importado: Ao pesar a mo sobre a Petrobras, o governo no prejudicou s a empresa, mas emperrou o aproveitamento de todo o potencial do pr-sal e comprometeu o crescimento do pas.
     Os ltimos resultados da Petrobras, anunciados no dia 26 de outubro, expuseram o estrago dessa poltica. O lucro diminuiu, os custos subiram e o endividamento bateu no limite. No ltimo trimestre, a produo de petrleo caiu 3%, chegando ao menor patamar desde 2008. Se estivesse investindo no pr-sal, como previsto, o Brasil deveria estar produzindo neste ano 6,8% mais do que em 2011 e continuaria autossuficiente, mesmo com o salto no consumo de combustvel devido ao aumento da frota. As dificuldades de gesto j esto sendo sentidas no preo das aes da estatal, que chegaram a cair 3,39% em um nico dia. Comparado a 2009, o valor de mercado da Petrobras foi reduzido a menos da metade.
     Recentemente, Maria das Graas Foster, presidente da companhia, admitiu a perda de eficincia mdia de 10% nas plataformas. Em alguns casos, chega a 50%. Uma das causas  o declnio natural da produtividade de poos mais antigos, mas influram tambm as transferncias e a aposentadoria de equipes de manuteno e operao altamente treinadas. A extino do bnus por desempenho individual dos funcionrios, trocado pela participao nos lucros, uma exigncia sindical, quebrou uma das vigas mestras do sucesso da Petrobras: a meritocracia. O novo sistema desestimula a excelncia individual e, pior, dilui as responsabilidade quando ocorrem falhas graves. A tudo isso, somou-se o atraso na entrega de plataformas e sondas para novos campos no pr-sal, fruto de uma contingncia do mercado internacional  o que tornar ainda mais difcil fazer a produo voltar a subir. O atual estrangulamento financeiro da estatal  apontado como uma das razes para o fato de o governo ter suspendido, h quatro anos, novos leiles de campos de petrleo, que exigiriam ainda mais investimentos. Sem eles, a produo no avana, desencadeando um ciclo vicioso que agrava a dependncia de importaes.
     Os sinais do fim da autossuficincia j aparecem. H um ms, seis estados das regies Sul e Norte ficaram sem gasolina. A prpria Petrobras reconhece que s em 2014 a produo voltar a crescer. A autossuficincia poderia ser reconquistada em 2015. Mas isso depende de a estatal cumprir os prprios planos, o que no tem ocorrido faz um bom tempo. Diz o economista Luiz Caetano, analista da corretora Planner Prosper: H pelo menos cinco anos a Petrobras no honra suas metas. Esse histrico no anima ningum.

O DILEMA DE DILMA - O preo da gasolina e do diesel deveria subir 10% na bomba para que a Petrobras deixasse de amargar prejuzos com a importao de combustveis. Mas a presidente evita autorizar os reajustes por causa do efeito na inflao.
Fontes: Agncia Nacional do Petrleo, Centro Brasileiro de Infraestrutura e Ita

PREOS ATUAIS (mdia nacional, em reais)
Gasolina 2,73  com reajuste de 10%: 3,00
Diesel 2,15  com reajuste de 10%: 2,37
IMPACTO NA INFLAO: 0,4 ponto percentual
INFLAO ESPERADO EM 2012: sem reajuste 5,45%; com reajuste 5,85%
QUANTO CUSTA ENCHER O TANQUE
Toyota Corola (60 litros)
Sem reajuste 164 reais
Com reajuste 180 reais.

UMA GUINADA INFELIZ
Enquanto o consumo de derivados do petrleo cresce, a produo cai. Isso far o Brasil perder a autossuficincia em 2013

Produo x Consumo (em milhes de barris equivalentes de petrleo por dia)
2011  Produo: 2,179; Consumo: 2,064
2012 (projeo com base em dados da Petrobras e da ANP)  Produo: 2,154; Consumo: 2,076
2013 (projeo com base em dados da Petrobras e da ANP)  Produo: 2,154; Consumo: 2,155
2014 (projeo com base em dados da Petrobras e da ANP)  Produo: 2,154; Consumo: 2,237
2015 (projeo com base em dados da Petrobras e da ANP)  Produo: 2,307; Consumo: 2,322
2016 (projeo com base em dados da Petrobras e da ANP)  Produo: 2,741; Consumo: 2,410

Fonte: Centro Brasileiro de Infraestrutura.

COM REPORTAGEM DE MARCELO SAKATE

